Domingo, 29.04.12

Estilhaços de um romance (19)

 

Naquela casa, a mãe, a cozinha, a máquina de costura, o bolo de fatia ao Domingo resumiam quase tudo, ela e os irmãos na sala, nos corredores, aos pulos, aos saltos e a mãe aos gritos entre brigas e trabalhos de casa, lanches e roupa na corda, o pai, estava lá mas ao certo havia uma parte da vida que convertia em dinheiro, como passava as horas não sabiam.

Ao fim de semana não podiam fazer barulho para que dormisse sem que ninguém o importunasse, embora o amasse, ele tornava-se ausente mesmo
quando estava presente, evitava a canalha e as questões domésticas, onde se construía uma narrativa a que era alheio, as diferenças no tratamento dos filhos, as facadas no ego de uns para que outros crescessem a pensar que eram donos do mundo, alheava-se disso, não participava e ao fim de semana seria bom que não o incomodassem, mal sabia ele que isso lhe iria sair muito caro.

Eram três, dois rapazes e ela, a mãe saber-se-ia lá porquê, adorava o filho do meio, parecido  com um tio, ou irmão, nunca chegara a uma conclusão, para ele estava reservado o melhor, o mais novo chegara quatro anos depois de aquele cenário estar alicerçado, estava fora de cena, servia de negativo na fotografia onde o outro tinha sempre uns caracóis amorosos e de tão lindo que era não precisaria de desenvolver grandes habilidades noutras áreas, ainda hoje se orgulha de uns paninhos bordados por ele e de um certo arroz que faz como ninguém.

Olha que baralho lhe havia de calhar,  se assim era, havia outras áreas da casa por habitar, uma máquina de escrever Hermes, que era quase como ter um deus do monte olimpo no seu quarto, era nesse esgalhar de letras que enfiava os dedos por entre o teclado, aquelas fitas de duas cores vermelho e negro, uma espécie de lápis para apagar os erros dactilografados e o som, esse adorava-o, dava-lhe adrenalina, misturado com o cheiro do café de saco que vinha da cozinha, quando havia tempestades os galhos das árvores chicoteavam a vidraça e por uma ou outra vez, as anonas desprenderam-se dos ramos e estilhaçaram os vidros, caindo sobre a mesa onde escrevia, adorava, quando a natureza se metia com ela, despertava nela alguns prazeres que não partilhava com ninguém.

Uma amiga da mãe apercebeu-se e para equilibrar as forças convidava-a para colocar nos bolos de noiva as grangeias coloridas, talvez tenha sido o seu primeiro encontro com a arte, adorava ir para casa dela, fazia bolos de noiva para pessoas amigas, não para obter lucro, por isso não havia contas nem lamentações acerca dos preços, havia sim, açúcar branco e luminoso como seria também a cocaína alinhada em riscos por quem mais tarde se viciara,
há tangos, que embora brancos, impõem-se.

Em África, uma miúda agarrada a uma máquina de escrever, não é muito comum, dos espaços exteriores estava condicionada, a educação judaico cristã e a origem portuguesa dos pais imprimiam certas regras, aquela máquina mais meia dúzia de livros eram o seu mundo,  um pé de café debaixo de uma nespereira e o jogo das escondidas à noite com todos os miúdos das redondezas, enquanto os pais bebiam copos nas casas uns dos outros, aí ensaiava as primeiras aventuras amorosas com alguns rapazes, coisas  de pele, uma actividade clandestina muito requintada, ninguém se apercebia, labirinto alicerçado no passado por em excêntrico que plantara num imenso terreno árvores de fruto de todas as partes do mundo, ela tinha a sua preferida, uma laranjeira rachada ao meio por um raio durante uma tempestade tropical,  os mais novos iam para um lado e os mais velhos para outro, era assim que se iam descobrindo, não havia raparigas, todos queriam a sua atenção, como era boa aluna, tinha um ascendente sobre alguns que frequentavam a mesma escola, na época ficava fascinada pelos mais velhos, andavam de mota e estavam a inventar uma forma de fazer cinema.

A vida corria por entre os dias, aprendera desde cedo a não se mostrar muito feliz com as coisas, a mãe não gostava das suas gargalhadas, escavou um espaço interior, onde poucos tinham acesso, uma elitista por razões cimentadas no seu  interior.

Um dos rapazes oferecera-lhe um carros de rolamentos, havia um outro grupo que se reunia no passeio, do qual também fazia parte, esses eram todos mais velhos do que ela, o carro de rolamentos permitia que participasse nas brincadeiras, ele empurrava-a e ela conduzia o bólide, a corda presa ao
eixo das rodas da frente permitia-lhe mudar de direcção, o rapaz que lho oferecera não era o mais bonito do grupo, mas estava rendida à sua habilidade para fazer carros de rolamentos e assumira também a responsabilidade de fazer as afinações, numa ocasião beijaram-se quando no final da noite qua as formigas voadoras rodopiavam em volta do candeeiro de rua e ela ficara a olhar para cima, ele de olhos postos nos seus lábios, não consegui resistir-lhe.

 

 

 

 

 

 

publicado por Isabel Afonso às 16:25 | link do post | participe
Sexta-feira, 27.04.12

Estilhaços de um romance (18)

Vinha-lhe à memória um dos poemas de José Luís Peixoto

 

Explicação da Eternidade

devagar, o tempo transforma tudo em tempo

o ódio transforma-se em tempo, o amor
transforma-se em tempo, a dor transforma-se
em tempo.

os assuntos que julgámos mais profundos,
mais impossíveis, mais permanentes e imutáveis,
transformam-se devagar em tempo.

por si só, o tempo não é nada.
a idade de nada é nada.
a eternidade não existe.
no entanto, a eternidade existe.

os instantes dos teus olhos parados sobre mim eram eternos.
os instantes do teu sorriso eram eternos.
os instantes do teu corpo de luz eram eternos.

foste eterna até ao fim.

Envolvia-se nos versos deste poema e a maior das inquietações ficava reduzida a pó, quando a vida se atribulava lia-o, quando a vida estagnava lia-o também, quando alguém morria li-o, era como um vestido preto que guardava no guarda roupa, ou rebuçados de menta.

Enchia-se de coisa nenhuma e isso era o mundo onde fixava o corpo e ao mesmo tempo um carrossel de coisa nenhuma onde pairavam como nuvens as suas inquietações.

Meu deus esse de que nos servimos no mesmo plano, que vida era aquela, estranha, mas outra não fazia qualquer sentido, aquela era na sua essência, um novelo  de lã nas patas de um gato.

 

publicado por Isabel Afonso às 18:02 | link do post | participe
Quinta-feira, 26.04.12

Estilhaços de um romance (17)

De repente ... o saco, estava quase inacessível, com tanta tralha a tapá-lo, ligou a televisão, nada de jeito, desligou-a, pousou o comando e caso pudesse ver o seu alter ego podia assistir a um verdadeiro espectáculo de acrobacia, dava cambalhotas umas para a frente, outras para trás, parecia uma criança a saltar em cima do colchão quando os pais não estão em casa.

O saco, nem dera conta, de repente estava na sala, o candeeiro fazia incidir um foco violento sobre o objecto, dele transbordavam, cartas, pedaços de papéis, cadernos, fotos ... lindo serviço.

O copo de vinho colocara-o agora no chão, encostara-se a uma almofada, trouxera uma manta para se enrolar, um maço de cigarros e um cinzeiro, se de uma operação cirúrgica se tratasse, não haveria enfermeira ajudante para lhe fazer chegar o bisturi, tinha de fazer tudo, sozinha e à bruta.

Muita matéria era já sua conhecida, outra nada que não suspeitasse, aparentemente, a bomba parecia ter sido detonada ao longo do tempo, bombinhas destas, pensava ela, eram estalinhos de carnaval.

Uma carta rasgada em bocadinhos pequenos, fora reconstruída, como quem cola os pedaços de um jarrão chinês, aquela não conhecia, havia até fotocópias, de cousa importante se tratava.

Levantou-se para pôr os óculos, aqueles retalhos impediam que fosse legível, anos de prática facilitavam a tarefa de encontrar o seu nome, desta vez várias vezes escrito ao longo da missiva, que nada mais era do que uma carta de despedida a uma amante, onde lhe explicava a necessidade de  voltar a sentir-se livre e de convidar a tal amiga intima para uma ceia, beber um vinho, rir, falar de coisas, as de sempre com a leveza que lhe fazia falta.

Ao jeitinho de Kundera a ausência total de fardo faz com que o ser humano se torne mais leve que o ar, fá-lo voar, afastar-se da terra, do ser terrestre, tornar-se semi-real e os seus movimentos tão livres quanto insignificantes.

Ele entregara-lhe a carta numa qualquer gare, ela rasgara-a metera os pedaços num dos bolso da gabardine e reconstrui-la depois, para lha reenviar com fotos e lamechices do tempo em que tinham sido amantes, gostou dela, conhecia-o, mas ela queria ter filhos, uma família e estava a pedir-lho logo a ele, as mulheres às vezes não analisam as coisas, o relógio biológico impõem um tic tac violento e estridente deixando-as surdas, como alguém diria as mulheres querem tudo e ele que apenas gostava de olhar para elas a passearem no cais.

Diabólico como era, empurrou-a para um amigo com o qual ela se envolveu, perfeito álibi, para sair de cena e ficar bem na última fotografia, um traste, ela apercebeu-se quando já era tarde.

 A ceia, o vinho, os  disparates, devem ter acontecido, sem que soubesse rigorosamente do que se tratava, talvez uma noite na rua do norte, talvez, lembrava-se vagamente de uma situação em que caprichara nos excessos e fizera questão de pagar a conta.

As mulheres querem tudo e ela também queria tudo, se lhe aparava os golpes daquela maneira, teria de perceber que apesar daquele compromisso descomprometido, este fazia parte de uma estratégia para ficar com ele por inteiro, querendo tudo e contando inclusivamente com algumas contrariedades,  essas que o coração dela também tecia.

publicado por Isabel Afonso às 23:07 | link do post | participe | ver comentários (4)

Má Educação

Abençoado povo tão mal educado, um pouco de ética pelo menos em tudo, o básico meu querido Kant...mitras sim, mas com estilo, bandidos também, mas com classe...

Isto é mesmo para não telefonar a uma amiga e estragar-lhe o serão com uma história triste, pois que até do telefone fujo, porque na verdade o meu ouvido não é um penico nem o dos outros.

Vá lá, não há dinheiro para ir de férias e depois, olhe faça férias aqui mesmo, leia uns livrinhos, coma umas saladas e ande a pé ... 

Não sou muita dada a estes desabafos mas hoje tinha de ser, esta parede branca que aguente...

Aqui vai uma ideia para descarregar a bilis...

publicado por Isabel Afonso às 22:08 | link do post | participe
Quarta-feira, 25.04.12

A arte dos outros

De Alexandra Mesquita

publicado por Isabel Afonso às 15:19 | link do post | participe

Pintando a manta (1)

 


Há uns anos o Whiskie não era feito em Sacavém, quando recuperou a consciência ela estava num hospital com uma agulha alojada  num dos pulsos, tinha por hábito negociar a espessura das agulhas mas não teve hipóteses.

Depositaram-na numa cama de grades que ela  transformou numa jaula de leoa enfurecida, quebrou tudo o que pôde, cansada  rendeu-se ao silêncio.

Um companheiro de quarto proferiu com a calma de um ancião:

- Está quieta miúda...que cena não sabe ressacar.
publicado por Isabel Afonso às 15:07 | link do post | participe

Estas papoilas que nos campos de um país atrofiado ainda crescem

Estas papoilas que nos campos crescem...apenas nos campos porque o país está a atrofiar

Foto de Rui Tavares

publicado por Isabel Afonso às 14:05 | link do post | participe | ver comentários (2)
Segunda-feira, 23.04.12

Estilhaços de um romance (16)

- Essas sandálias de preta, precisarás tu de sandálias mulher?

- Umas de preta, preciso daquelas que me façam sentir em Àfrica para poder lidar com determinado tipo de animais, ainda ficou pior, que raio de metáfora enviusada, afinal lera ou não o caderno. Lera, pois mas disso nunca teria a certeza, para não se armar em cínico, que para cínica já bastava ela, mesmo com adornos, porque estes cínicos pós modernos dão-se a certas frescuras, uns temperam-se com uma snobeira aliada a uma estética anos vinte, outras embora de sandalinhas, compram-nas nas lojas mais caras de Lisboa, bem aventurado o mundo dos cínicos.

 Passados quinze anos ainda havia dúvidas, lol, desta vez ia para a Índia, pois ia, haveria de voltar, arranjara uma bolsa para fazer um doutoramento em Álgebra e claro a Índia era imprescindível, lol.

Havia no entanto umas manobras estranhas à volta de um saco que não podia ficar em sua casa porque…porque, ela não chegou a perceber e às cegas lá lhe disse que depois o iria buscar  quando partisse, andava muito ocupada para entrar em pormenores. Só depois de ver uma fotos dele em frente ao Tasmaal  no Facebook se lembrou do saco, desligou o computador, desceu as escadas, esgueirou-se para dentro do carro e lá foi, aquela rua no Bairro Alto era um martírio para estacionar , mas tinha de ser.

Ora bem o saco, lá estava, aparentemente ninguém lhe tinha mexido, eram os tais cadernos mais um monte de cartas, ele sabia as razões porque não o queria ali, calculou logo que se tratava de matéria explosiva e como tal foi tratada, quando chegou a casa empilhou-o em cima de uns bagulhos enormes e ainda lhe deu um empurrão para que não fosse visível quando entrasse no quarto onde guardava uma série de tralha velha, aquela que não sendo suficientemente velha não a arrumava no sótão.

publicado por Isabel Afonso às 22:59 | link do post | participe | ver comentários (1)

Estilhaços de um romance (15)

Há manhãs assim, claras, o café, os ovos mexidos, o gato, o som dos barcos a entrarem na Barra do Tejo, o sino da igreja, a chuva no telhado ensaiando aquela melodia de acordes improvisados que bem conheces, e claro a tua ausente presença também se faz notar; não seria difícil saíres daqui sem te molhares, lá em cima no sótão estão uns chapéus antigos de varetas grossas, aqui junto a mim há uns pedaços de papel onde é possível  traçar alguns segmentos de recta e os teus pés sobre eles, dou-te o chapéu e tu ficas impressionado com o seu tamanho, não reparas nos estragos feitos pelas traças, os pingos caem e trespassam o pano, molham-te os pés e o carvão mistura-se com a água e agora os segmentos de recta são uma
mancha cinzenta, vou ter de te redesenhar a expressão aproveitando alguns traços, engrossando outros através da pressão que exerço sobre o lápis, estás aflito, no entanto caminhas ensopado em água, a distância que nos separa cada vez é maior.

Dobro o pedaço de papel envolto numa aguada cinzenta e beijo-o, nele fica impresso o meu baton vermelho, aprendi isto com uma amiga, dizia ela que desta forma sempre que escrevia assumia um compromisso com aquilo que havia de mais autentico em si mesma, como sou pouco dada a compromissos, este parece-me bem, aparentemente inofensivo, como são todas os perigos com que me envolvo. Essa amiga, por exemplo,apaixonei-me por ela por entreposta pessoa, só agora percebi quais as peças do puzzel que temos em comum, mas como de costume quando me apercebi já era tarde, encontramo-nos todas as sextas feiras no sofá de uma livraria, ela chega sempre primeiro, namorisca várias outras pessoas, é de uma beleza estonteante, não precisa de muito, apenas estar, já percebi porque me apaixonei durante as primeiras palavras que trocámos, entretanto ficou muito claro o perigo que representa para mim, pois algumas coisas gostaria que permanecessem num lugar destinado aquilo que não gostaria de tirar a limpo, por enquanto fazem parte da minha nintimidade mas dessa exuberância com que ela exerce a maternidade não gostaria de falar porque seria demais para mim, essa é uma peça do puzzel que não tenho porque a natureza encarregou-se de me dar os sinais, parece-me que a ela
também, mas resolveu ignorá-los.

 

publicado por Isabel Afonso às 22:34 | link do post | participe
Sábado, 21.04.12

Estilhaços de um romance (14)

Há manhãs assim, claras, o café, os ovos mexidos, o gato, o som dos barcos a entrarem na Barra do Tejo, o sino da igreja, a chuva no telhado ensaiando aquela melodia de acordes improvisados que bem conheces, e claro a tua ausente presença também se faz notar; não seria difícil saíres daqui sem te molhares, lá em cima no sótão estão uns chapéus antigos de varetas grossas, aqui junto a mim há uns pedaços de papel onde é possível traçar alguns segmentos de recta e os teus pés sobre eles, dou-te o chapéu e tu ficas impressionado com o seu tamanho, não reparas nos estragos feitos pelas traças, os pingos caem e trespassam o pano, molham-te os pés e o carvão mistura-se com a água e agora os segmentos de recta são uma mancha cinzenta, vou ter de te redesenhar a expressão aproveitando alguns traços, engrossando outros através da pressão que exerço sobre o lápis, estás aflito, no entanto caminhas ensopado em água, a distância que nos separa cada vez é maior.

Assim permanecerás num lugar destinado aquilo que nunca hei-de compreender, escavo, retiro carradas de terra, pedras, fósseis e até raízes de árvores, há até um ou outro lençol de água onde me refresco, sementes em germinação, bichos sem olhos que sabem para onde vão, mas compreender, isso não.

publicado por Isabel Afonso às 18:32 | link do post | participe | ver comentários (3)

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