O meu poema oração

Vinha-lhe à memória um dos poemas de José Luís Peixoto

 

Explicação da Eternidade

 

devagar, o tempo transforma tudo em tempo

o ódio transforma-se em tempo, o amor
transforma-se em tempo, a dor transforma-se
em tempo.

os assuntos que julgámos mais profundos,
mais impossíveis, mais permanentes e imutáveis,
transformam-se devagar em tempo.

por si só, o tempo não é nada.
a idade de nada é nada.
a eternidade não existe.
no entanto, a eternidade existe.

os instantes dos teus olhos parados sobre mim eram eternos.
os instantes do teu sorriso eram eternos.
os instantes do teu corpo de luz eram eternos.

foste eterna até ao fim.

 

Envolvia-se nos versos deste poema e a maior das inquietações ficava reduzida a pó, quando a vida se atribulava lia-o, quando a vida estagnava lia-o também, quando alguém morria li-o, era como um vestido preto que guardava no guarda roupa, ou rebuçados de menta.

Enchia-se de coisa nenhuma e isso era o mundo onde fixava o corpo e ao mesmo tempo um carrossel de coisa nenhuma onde pairavam como nuvens as suas inquietações.

Meu deus esse de que nos servimos no mesmo plano, que vida era aquela, estranha, mas outra não fazia qualquer sentido, aquela era na sua essência, um novelo de lã nas patas de um gato.

 

O autor é conhecedor deste acrescente e não se importa, é um bacano

 

publicado por Isabel Afonso às 20:47 | link do post | participe