Estilhaços de um romance (22)

A casa estava cheia de gente, mudanças, pregos,... alguém bateu à porta, era o homem do gás, natural como se usa agora, de contrato na mão acompanhado pelo senhorio,  havia uma mesa redonda entre as mobílias ainda encaixotadas, foi para lá que o convidou, ele contido num casaco abotoado, ela cansada, pronta para responder a um qualquer inquérito que incluísse o número de identificação fiscal, mais o número de Bilhete de Identidade, a morada antiga, a morada para onde pretendia transferir o serviço, essas coisas enfadonhas que fazem parte do quotidiano.

Quando se apercebeu das perfeitas linhas das suas mãos e nesse exacto momento ele dispara a pergunta:

- É pintora?

- Sou...desculpe o disparate, não sou pintora, pinto...

- Ficou intrigada, porque daria ele aquela entoação à pergunta? Obvio, ele também ...

-Também pinta?

- Sou obsessivo...desculpe sou ilustrador.

- Ser obsessivo é uma muito boa característica para quem desenha, aliás para quase tudo .

- Raios que conversa enviusada, pensou ela, percorrendo a linha da camisa que se lhe ajustava ao pescoço e depois a linha dos lábios.

- Veio-lhe à cabeça a possibilidade de o beijar...

Não fosse a presença dos demais, conteve-se e ele também...

 

publicado por Isabel Afonso às 21:39 | link do post | participe