Sarcófago animado

Entre o arvoredo, o velho sarcófago, pedacinhos de poções mágicas entre mãos ,  mortalhas e riscos brancos, na escuridão, visitavam-se de quando em vez como as crianças que guardam chocolates em lugares inacessíveis para os dias especiais, naquela noite ele pedira-lhe para a examinar de perto, por longas horas até amanhecer, levou-a até às árvores mais próximas, ajudou-a a acomodar-se por entre os ramos, de seguida alojou-se no chão.

Queria desfrutar de cada pormenor, não demasiadamente perto nem demasiado longe, aquela distância onde fosse possível sentir-lhe a respiração, a pele em arrepio, os músculos em esforço.

Sentia-se como uma cria  esmagada e protegida pelo poder absoluto da progenitora, sentiu-lhe o poder, um óvulo a desprender-se, neurónios activos, serotonina em alta, vinte cinco anos de existência, percebera exactamente como se estruturava, num rasgo de clarividência, conseguia ver a dificuldade que sentira para disciplinar aquele cabelo, uma fêmea no seu apogeu, vigorosa, longe da fragilidade de uma gazela mas próxima da feracidade de uma pantera, espalhava talento, aquele que vem da terra, impunha respeito, estava ali, para matar a sede.

 

publicado por Isabel Afonso às 19:16 | link do post | participe