Encontros anacrónicos (1ª versão)

Escrevo para te dizer que hoje tirei da tua estante que contrasta com a minha pela arrumação metódica, eu sou dada uma certa anarquia de livros empilhados, há um mês que não nos vemos, o Brasil, talvez uma mulher, nunca nos pautámos pela fidelidade, enfim, antes assim que o tédio de almoços e jantares de silêncios embaraçosos e cobranças desnecessárias.

 

Agarrei num dos teus livros, tinha consulta médica e dava-me jeito um livro, César Pavése, porque não, há uns anos pediste-me para te trazer um dele de Paris, já não me lembrava qual, Paris, quando era hábito visitar a cidade regularmente, por causa dela mesma da cidade que por si só justificava as viagens, a primeira que fizemos, recordo-me de nos deitarmos na relva junto aos expressores de rega depois de uma tarde de deambulações.

 

O livro, abri-o e só depois me apercebi que era o que te comprei, havia desenhos de corpos nus nas folhas que antecedem o texto, sempre gostei de fazer essas coisas, havia até um bailarino que tinha por hábito exibir-se em frente ao centro George Pompidu, ia para lá sentava-me no chão com o caderninho dos desenhos e aproveitava os movimentos dele para os reproduzir nas folhas grossas de papel de desenho, , uma vez, tu não estavas lá e acabámos por nos conhecer, aconteceu quando ao colocar umas moedas no chapéu que estrategicamente colocava sobre o passeio, os meus olhos esbarraram nos dele e um qualquer movimento desencadeou uma espécie de beijo suspenso, jantámos por ali, numa esplanada, o chão estava quente e descalcei as sandálias,  o brilho da lua fazia um efeito de contraluz nos contornos do corpo dele, os músculos desenhados, mas serenos, sou de amar mais do que me deixar amar, sabes disso.

 

O livro, de repente não o reconheci nem reconheci aqueles desenhos, obvio que fiquei com ciúmes de mim própria, havia mais alguém a oferecer-te desenhos que não eu, PARIS 20 /08/95, aquela era a minha letra, raios, não me lembrava de os ter feito, eram meus e nem estavam nada mal.

 emolduraste-os com um poema que desconhecia, ficou lindo, riscaste algumas palavras que ainda  consegui ler, percebe-se que te escondes dentro dele.

Salut Masino

isabel Afonso

publicado por Isabel Afonso às 01:54 | link do post | participe