Matar pode ser um acto de ternura

No filme Amour, os dois protagonistas vivem o drama da velhice, ela inicia a perda gradual das suas funções, ele assume-se como timoneiro em todo esse doloroso processo, pontuado de drama e fragmentos de felicidade cimentados no passado, o vinho, o gosto pela arte e o evidente poder económico constituem elementos facilitadores.

No cenário doméstico desenrola-se toda a trama, a casa é também ela um personagem, nela estão impressas as marcas do passado desta família, adivinham-se as festas em ambiente intimista, os livros, o piano; é este ambiente que serve de trampolim para o sucesso profissional da filha e dos netos, um deles visita os avós e a pedido toca para eles, apesar de fugaz é uma das presenças mais afectuosas, a par da ruidosa empregada de limpeza.

A filha simplesmente não entende o que se passa, o trabalho absorvente a frieza dos gestos posicionam-na a anos luz daquela realidade, aparece para destabilizar e ninguém está à espera que faça melhor.

Ele, elegante de olhos brilhantes como são os de quase todos que sabem envelhecer, quer usufruir daqueles momentos, até ao dia em que ela já não consegue beber a água que ele carinhosamente lhe dá, sufoca-a colocando a almofada sobre a cabeça da mulher e  esta morre, quase sem resistir.

Um filme extraordinário, realizado por Michael Haneke que conta com as fabulosas interpretações de Jean-Louis Trintignant e Emmanuelle Riva.

 

 

publicado por Isabel Afonso às 23:09 | link do post | participe